Quem disse que eu consigo viver sem elas?


Quarenta e três minutos e quarenta e cinco segundos. Tempo suficiente para um episódio de qualquer seriado em que normalmente coisas grandiosas acontecem. São carros explodindo, helicópteros caindo em hospitais, ilhas sumindo, gente morrendo, gente ressussitando... uma celeuma básica. Mas, apenas um seriado é capaz de fazer com o texto o que os outros fazem com as imagens.

Tá, talvez eu esteja exagerando... talvez haja mais seriados com essa capacidade, mas vamos combinar que a pessoa que consegue usar as palavras "exponencial" e "pletora" em relação a roupa suja e ainda deixar a frase engraçada deveria ganhar um prêmio! E se você ainda não sacou de que série eu estou falando, não se preocupe vou acabar com o mistério agora.

Tô falando de Gilmore Girls, é claro! Acho que esse é o seriado que eu mais irei rever, até porque quando eu enjoar do relacionamento sensacional (e invejado) de Lorelai e Rory ainda vão me restar: o trovador maluco, o dono de lanchonete ranzinza, a cozinheira afetada, a professora de balé assanhada, a amiga compulsiva, o francês enjoado... e por aí vai. São todos personagens insólitos, mas não dá pra dizer que eles não são adoráveis. E sem falar nos festivais malucos, mas que tenho certeza que quem já assistiu queria tá lá pra participar, da maratona de dança ao festival de arte viva. São eventos absurdos, mas que naquela cidade se tornam fantásticos.

E mesmo que eu me canse de assistir tudo isso, eu ainda terei o texto insano, com cinco quilos de falas para cada personagem; com palavras nada comuns no meio das sentenças; com referências a uma música dos anos setenta que a autora jura que as pessoas conhecem (ou simplesmente nem liga se as pessoas conhecem ou não); com frases tão irônicas quanto a bondade de Bush.

Se você ainda não assistiu, dê uma chance a Gilmore Girls, que é vício na certa! E se você já conhece, faça como eu , re-assista e se surpreenda com a magnitude desse seriado.

=**
Taty =)

Gilmore What?


Quem já ouviu o novo podcast (um dos melhores dos nossos podcasts diga-se de passagem, e não é só porque eu não estou nele) já sabe que alguns comentários envolvendo eu, Gilmore Girls e Friends foram feitos. Não vou especificar o que é pra não dar spoiler sobre o podcast, mas quem ouviu (e quem falou) sabe, e portanto, me darei o direito de discordar do que foi dito. Porque como toda unanimidade é burra, e toda seleção de melhores e piores filmes sempre gera polêmica, revolta e guerras sangrentas, qual seria a graça se o Telacast fosse perfeito? (nós quase somos, mas Chico Buarque ainda mantém seu título).
Então vamos lá, comparar Gilmore Girls (que pra mim é a melhor série de todos os tempos) e Friends (que é o maior sucesso em comédia do final do século XX) é meio estranho uma vez que elas são em sua base, muito diferentes uma da outra. Mas como eu fui acusado de não ter argumentos suficientes pra credibilizar Lorelai e Rory a um patamar mais alto na opinião de nossos quatro podcasters, eu me proponho ao desafio. Vamos aos fatos:

-Gilmore teve ao longo de suas 7 temporadas, 154 episódios de 40 minutos cada, totalizando 6.160 minutos ou aproximadamente 103 horas de série que foram ao ar. Friends por sua vez, em 10 anos (ou 10 temporadas) teve 238 episódios com 20 minutos cada, totalizando 4.760 minutos, ou, aproximadamente 80 horas de material que foi ao ar. Isso quer dizer que Friends, em dez anos, produziu menos material do que Gilmore Girls em 7. E vocês hão de concordar comigo quando eu afirmo que fazer esse, demandou muito mais trabalho e esforço do que aquele.

-Amy Shermman Palladino (criadora de Gilmore) e seu marido Daniel Palladino foram os produtores executivos das seis primeiras temporadas de Gilmore, a sétima ficou sob a responsabilidade de David Rosenthal. Eles foram responsáveis por toda a concepção das histórias e arcos de acontecimentos do seriado, eles três foram os principais responsáveis por "criar" todas as situações desencadeadoras de conflitos no universo criado pela Amy Palladino. Já Friends, ao longo de suas dez temporadas teve 11 produtores executivos, que foram inventando as situações malucas em que os seis amigos se envolviam. Não tiro jamais o mérito dos caras que conseguiram levar em 10 anos, uma qualidade extremamente constante e um sucesso que só foi aumentando. Mas o trabalho dos 3 em Gilmore Girls, é muito mais digno de crédito.

-Gilmore Girls em toda sua história, contou com um time de apenas 19 escritores para fazer todas aquelas referências e piadas, Friends por sua vez contou com 42 escritores, quase a quantidade de personagens fixos e com super-poderes na novela Mutantes.

- Gilmore Girls é um seriado extremamente pós-feminista (como assim classificou Myrianna a também famosa, Sex and the City) e que revolucionou a tv porque apresentou uma protagonista com um passado rico, mas que sacrificou sua condição para criar uma filha sozinha e com apenas 16 anos. Não que isso seja novo em termos de acontecimento ficcional, mas a série teve coragem de ir além e apresentar essa potencial Maria do Bairro, como um indivíduo extremamente bem resolvido, cômico e mais do que isso, finaceiramente independente, sem precisar de homens ou parentes para viver. Isso foi um diferencial extremamente importante na base do seriado. Tanto que ele sempre foi tido em sua emissora, como um "seriado-família", comprovando que a forma com que a sociedade moderna encara a família já se modificou bastante e apesar de muitos tradicionalismos, o modelo patriarcal aos poucos pode ser abandonado também na ficção voltada para a família. Tanto que a série foi a primeira a ser apoiada pelo Family Friendly Forum, que é tipo uma organização pelo bem da família lá nos estêitis.

-Gilmore Girls trouxe de volta à televisão a extrema importância dos diálogos na tela. Algo que foi muito forte no cinema norte-americano na década de trinta, e que se perdeu ao longo dos anos, uma vez que o apoio intenso da imagem, e também a imensa valorização da estética que o show-business sempre apoiou, acabou valorizando muito mais a forma do que o conteúdo nos seriados. E Gilmore resgatou esse modelo cinematográfico/teatral na televisão. Que findou sendo a característica mais marcante da série: a velocidade das falas dos personagens mas que tinha por trás não só uma importância cômica, mas um valor artístico importante.


Pronto, falei.

Mas vamos lá, apesar da minha obsessão pelas "garotas Gilmore" (como diria o narrador afetado do Warner Channel) é bom deixar claro que eu amo Friends e com certeza é um dos melhores seriados de todos os tempos. E eu também não sou tão revoltado assim, só o suficiente pra passar umas 3 horas no google procurando argumentos pra defender Gilmore Girls! :P

P.S.: Todos os dados aqui apresentados podem ser pessoalmente verificados no IMDB (para os menos obcecados por cinema e séries, Internet Movie Database, o maior site sobre cinema e séries do mundo).
P.S.2: Quem quiser mais argumentos como esses, pode me procurar que eu falo. Se eu fosse escrever mais, seria sistematicamente expulso da equipe do Telacast, e menos de 3 pessoas leriam tudo, isso se mais alguém além de você e minha mãe leram tudo.

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